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sexta-feira, 11 de abril de 2008

Lascivo Soluço Distante -- (Conto)


"Mermão, sei lá o que aconteceu. Parece que a gente tava na casa de uns chegados das antigas, saca? Bicho tu não faz idéia do que eu to sentido. É uma mistura de êxtase e saudade infantil. É muito bom sentir isso... Acho melhor eu ir cuidar das pulgas antes que alguém as ache dando sopa por aí. Mas antes quero lhe comunicar uma coisa, e não me olhe com esse ar de superioridade, já estou cansado de bancar o idiota e ficar apenas segurando a raiva, sempre contando até dez.

Eu odeio números, detesto contá-los, e confesso que mesmo assim esse mecanismo torpe e de inutilidade adquirida funcionou por algum tempo. Diria mais ainda, funcionou por um longo período que me transformou aos poucos numa pilha de nervos. Devo toda essa minha aparência angustiadamente perdida em toda extensão deste pedaço de carne,osso e doença; é isso mesmo, DOÊNÇA, porquanto a metafísica desta pobre mente empírica só define o que um dia acreditou-se ser alma humana cheia de energia e indefinições que praguejam contra o nada em busca de respostas que, de tão completas, tornam-se vazias, apenas um risco imperceptível nas sombras dessa garrafa plástica que nos cerca. E fique sabendo que essa ponta de gota lacrimal que seus olhos empurram com tanta falta de vontade não me comove já faz alguns anos, maluco, desde quando tomou bomba em três matérias e teve de repetir um semestre.

Levanta a porra dessa cabeça que só serve para guardar essa massa racista e ignorante que a vagabunda da tua mãe, depois de trepar com o médico um pouco antes de você nascer, chamou de cérebro. Ficou surdo, ou é apenas mais uma demonstração de fraqueza; é melhor se acalmar cara, eu já falei que esse seu choro forçado não me comove mais."


Diretamente da mente insana de Eclesiastes Junior, vulgo Pinguim, publicitário e vocalista da banda Radiocarbono.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2008

O timoneiro

"Não sou o timoneiro?" – exclamei. "Você?" – disse um homem alto e escuro e esfregou as mãos nos olhos como se espantasse um sonho. Eu estive ao leme na noite escura, a lanterna ardendo fraca sobre minha cabeça e agora vinha esse homem e queria me pôr de lado. E já que eu não me afastava, ele calcou o pé no meu peito e me empurrou para baixo devagar enquanto eu continuava agarrado aos raios do leme e na queda o tirava completamente do lugar. Mas o homem o pegou, colocou-o em ordem e me empurrou dali com um tranco. Eu porém me recompus logo, corri até a escotilha que dava para o alojamento da tripulação e gritei: "Tripulantes! Camaradas! Venham logo! Um estranho me expulsou do leme!" Eles vieram lentamente, subindo pela escada do navio, figuras possantes que cambaleavam de cansaço. "Não sou o timoneiro?" – perguntei. Eles assentiram com a cabeça, mas seus olhares só se dirigiam ao estranho; ficaram em semicírculo ao redor dele e, quando ele disse em voz de comando: "Não me atrapalhem", eles se juntaram, acenaram para mim com a cabeça e voltaram a descer pela escada do navio. Que tipo de gente é essa? será que realmente pensam ou só se arrastam sem saber para onde sobre a terra?

Franz Kafka - Enviado pelo Pinguim por e-mail.
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Alguns lêem esse tal de Kafka de que todo mundo fala e dizem, “é isso?”, fecham o livro e nunca mais irão ler nada do autor. Outros lêem e dizem, ainda mornamente, “é isso...”, até que não é tão ruim. Outros, de primeira, já detectam sua singularidade e genialidade, “é isso!”, e nunca mais conseguem largá-lo.